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| Publicado em 29 de dezembro de
2003 |
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A mulher de 30
A primeira mulher
de trinta que se me chegou no quentinho dos tímpanos vinha
pela voz anasalada de Miltinho, um cantor dos 60, e descrevia
uma senhora que sofria, “num triste olhar, num triste adeus,
não minta”. Eu nada sabia sequer das de dez, como até hoje
ainda nada sei das de mais. Pelo que entendi de Miltinho era
um bode ser mulher de 30.
Parece que essas senhoras,
ouvi falar, tenho lido, vi no “Sex and the city”, mudaram. Não
escrevo isso por causa das calcinhas com mensagens apimentadas
que andam usando. É por causa do conteúdo. Cansadas da
conversa mole do cantor — “o amanhã sempre vem, e o amanhã
pode trazer alguém” — elas correram atrás do prejuízo e,
embora despistem com seus sapatos de boneca e unhas de
misturinha, estão enfrentando geral. O príncipe encantado não
existe mais. Nem no sonho nem na expressão. Os candidatos
agora são abreviados por “pretês”. Uma coisa assim meio homem,
assim meio sigla de partido. Coisa em que não se deve
acreditar muito.
Li antes, e lhe fiz a orelha, o livro
“Mulheres no ataque”, de Carla Rodrigues e Martha Mendonça. Em
resumo, as duas acham que a relação homem e mulher está virada
de cabeça para baixo — a frase é delas, jamais colocaria isso
na boca de senhoras — “e não só para fazer sexo oral”. Li,
também acabou de sair, “Manual para moças em fúria”, de Jô
Hallack, Nina Lemos e Raq Affonso. Essas acham o mundo uma
farsa. Estão em fúria porque fazem parte de uma indústria que
fatura com o blablablá das mulheres de 30 e, horror, horror,
elas não faturaram nem R$ 100 mil ainda. Não querem mais
queimar sutiã, ainda mais esses lindérrimos com silicone
aplicado que dão o maior up . A nova mulher de 30
coloca fogo é nos hormônios das idéias.
Elas podem até
ter herdado alguns dos problemas da trintona triste, levada na
lábia pelo Miltinho, pois mesmo com a invenção do celular os
homens continuam não telefonando no dia seguinte. A diferença
é que agora, ao invés de servirem de inspiração a um
sambalanço melancólico, elas são as primeiras a morrer de rir
da própria patetice. Cravaram um piercing no umbigo,
depilaram-se ao estilo brazilian wax . Acham que
essas experiências de sofrimento bastam. De resto, mesmo que
tomem um Zoloft, sofram de gastrite e ouçam Morrissey no
intervalo de uma decepção e outra, elas gargalham.
Numa das histórias do livro de Carla e Martha,
inspiradas em casos da vida real, uma dessas trintonas, diante
da dificuldade da amiga em explicar por que tinha acabado o
casamento, pergunta se o marido batia. “Olha, querida”,
respondeu a outra, “se ele me batesse talvez eu não tivesse me
separado dele”. Essas mulheres são cínicas, descaradas,
abusadas — se é que eu entendi como gostam de serem tratadas
agora no tal quentinho dos tímpanos. Uma delas saía há uma
semana com um pretê moreno, alto, bonitão e cheiroso. “Você é
a mulher com quem eu me imagino fazendo compras no
supermercado”, ele disse. No dia seguinte, ela voltava a sair
com o ex, feio e infiel.
O assunto, claro, é sempre o
desajuste, o côncavo e o convexo que não se encaixam, por que
se o fizessem dariam outra coisa, talvez uma canção melosa do
Roberto. Relações bem resolvidas não servem ao humor, geram
filhos e isso acaba tirando a graça. As moças em fúria querem
resolver a equação. Elas gostam de dancinhas ridículas e pagar
mico na pista. Eles vão para a janela e gritam “Mengooo”. Como
juntar seres tão desparagonados?
Os livros das
mulheres de 30, como o programa “Sexo frágil” dos homens de 30
na Globo, falam da mesma coisa — a busca da felicidade com o
sexo oposto. Elas querem se aproximar do torcedor da janela
porque morrem de medo de chegar aos 45 sem filho. “Dá insônia
de tão triste”, desabafa Nina Lemos. Num momento de
despojamento radical de suas convicções, uma delas se diz
capaz até de tentar com um homem de mocassim franjado e sola
de bolinha. Mas é brincadeira. Sério mesmo é que, como se
fossem a musa do Miltinho, querem casar, por mais complicado
que seja o cavalheiro do outro lado do telefone.
Uma
das mulheres no ataque do livro de Carla e Martha liga para o
apartamento do namorado e, mal refeita do susto, pois do outro
lado atendeu uma voz de mulher, respira aliviada com o
conselho da amiga: “Seria pior se atendesse um homem”. As
novas trintonas dos livros de Natal só temem da vida a
caretice. Mais do que aos rapazes com camisa para dentro da
calça, elas repudiam as executivas solteiras que viram machas
e param de brincar. Querem continuar levando a vida como
passaram a juventude, ao estilo mosh — jogando-se dos
palcos de punk rock em cima dos ombros acolhedores da platéia
cúmplice. Acham no entanto que os pretês ou são todos gays ou
de outro estilo de rock. Não servem de aeroporto seguro ao vôo
de liberdade que pretendem eternizar.
Quarenta anos
depois daquela chorosa do Miltinho, com o coque redondo feito
o prédio do Senado em Brasília, as trintonas usam os cabelos
desconectados. Continuam como sempre deliciosamente
incoerentes, comprando na liquidação da Forum aquela blusa
superdecotada que nunca vão usar mas estavam “precisando
muuuito”. Conquistaram o poder no mercado de trabalho, mas, o
que adianta?, se o poder só lhes dá direito a escolher entre
102 cores de esmalte.
De manhã, ouvem Clash bem alto.
De noite querem se refestelar burguesas num lençol egípcio de
360 fios. Se a vida ainda não está ao jeito, conformam-se com
mantras tranqüilizantes: “Ele é só um cara, ele é só um cara”.
As balzaquianas de 2004 são lindas e eu só escrevo
assim, bal-za-qui-a-nas, como ponto final, para ter o
quentinho dos tímpanos bafejado por uma delas, que, espero, me
ligue e em seu furibundo desabafo, falsamente zangada, diga
“balzaquiana ficava a vovozinha”.
Definitivamente,
estão todas certíssimas. Esses pretês não prestam.
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